sábado, 4 de junho de 2011

Covilhã - Contributos para a sua História dos Lanifícios VI

Da produção doméstica à industrial

Já vimos que também em Portugal se fabricavam panos, que mais não fosse o burel, para uso caseiro e aproveitamento da lã das pequenas explorações ovinas. Mas essas explorações caseiras não apresentam nenhumas características industriais. Por isso, fora o tear caseiro sem projecção documental mas imprescindível ao fabrico do burel, só o pisão, em regra, situado na margem das ribeiras, ou o pelame, para a deslanagem das peles, figuram nos documentos mais antigos. A sentença a favor de D. Dinis para se lhe pagar o foro nos Pisões da Ribeira da Cabrita e outros documentos garantem-nos que o pisão foi talvez o primeiro ofício da lã a tomar a forma artesanal, a constituir uma unidade económica independente, não só com vista à sustentação do seu mestre, mas também para abastecer os vizinhos do burgo, ou da vila, ou do termo, da enxerga tecida no tear caseiro ou importado do estrangeiro, v.g. Inglaterra. A posição económica do tinte deve ser idêntica à do pisão. O tear deve ter saído do círculo caseiro para o artesanal mais tardiamente. D. Afonso V, já no ciclo dos panos meirinhos, privilegia [a dois de Novembro de 1453] o tecelão de Penamacor Mail Levy (1), eximindo-o dos encargos do concelho e de alguns direitos reais. É singular que seja exactamente um judeu o primeiro artesão de tecelagem de que temos notícia em Portugal.
Com o reinado de D. Manuel, ou pela abundância de legislação ou porque de facto, como presumimos noutro lugar, fosse nele que se desenvolveu o fabrico dos tecidos, surge, entre nós, uma variada e completa documentação sobre os ofícios com ele relacionados.
Entre todos mencionaremos dois documentos que se referem à tecelagem: aquele que autoriza os tecelões e tecedeiras da Covilhã a recolherem a casa depois do Sino corrido e o que dispensa os mesmos de terem balança.
O primeiro indica-nos a existência de uma tecelagem fora do círculo caseiro e o segundo que a mesma já trabalhava para terceiros, ou seja, já trabalhava fora do círculo caseiro e até do círculo artesanal, num regime quase de assalariado, longe do mercado da compra do fio ou da lã e do mercado do tecido. A situação destes tecelões parece ser diferente da de Mail Levy, que embora não apisoasse os seus panos, devia, como bom judeu, levá-los às feiras da província.
No primeiro quartel do século XVI e no derradeiro quartel do século XV surgem-nos algumas referências aos tecelões de panos e os nomes de alguns chegaram até nós, da mesma forma que nos chegaram também notícias de vários mestres de panos, tanto da Covilhã como do Fundão. O lugar do Fundão figura assim no termo da Vila como a induzir-nos a aceitar uma tendência de organização de trabalho que pretende eximir-se à fiscalização municipal. Mas os mestres de panos, que não figuram como tecelões, tintureiros, cardadores, tosadores ou pisoeiros dão-nos a imagem de verdadeiros artesãos, orientando superiormente os vários ofícios dos panos, uma célula de organização industrial. Anos mais tarde depararemos com os pisões e engenhos na Covilhã. Presumimos serem já pequenas oficinas especializadas, trabalhando para o mercador que compra as lãs nos mercados de Portugal e Castela, as fia e carda pelos seus oficiais, as manda tecer ao tecelão com tenda aberta e, depois tosar, apisoar e tingir aos mestres destas oficinas; ainda no século XVI, mas já nos 2º e 3º quartéis e na Covilhã, aparece-nos uma figura curiosa de industrial e mercador – Fernão de Anes – que em certa diligência de 1541, orgulhosamente disse “ não ter criação de ninguém e vive(r) honradamente e abastado”; no seu testamento de 1564, depois de ainda frisar a circunstância de vir do nada e de dizer que já repartiu por seus filhos Francisco Fernandes 480.000 reis; João Fernandes 400.000 reis; António Fernandes 400.000 reis e Maria Fernandes 2.500 cruzados e instituir uma capela e vários legados com a sua quota disponível (a terça), declara que estes bens os ganhou e Deus lhos deu. Avaliamos a fortuna deste Fernão de Anes em cerca de 4.000 contos da moeda actual (1953).
Ora, Fernão de Anes, além de mercador, possuía como refere o seu testamento, vários pisões. O princípio corporativo com sua oficina tinha cedido definitivamente a um regime mais largo, a um regime de liberdade industrial: não só o mestre podia ter mais do que uma oficina, mas é o próprio mercador que se transforma em industrial, assenhoreando-se dos instrumentos da indústria, assumindo uma posição de direcção perante o mestre e os oficiais que atira para o assalariado. Mas no século XVI o tipo mais característico do mercador covilhanense é o que oferece o nosso já conhecido Gonçalo Vaz (2).
A sua actividade desenvolve-se deste modo: compra lãs em Castela e no Alentejo,- em Medina del Campo e Évora – manda-as escolher e cardar em sua casa, dá-as a fiar às muitas fiandeiras disseminadas pela Vila para, depois de urdidas, entregar as teias aos tecelões, visitando depois, diariamente estes e as oficinas de apisoamento, tosagem e tinturaria a quem entrega a enxerga para ultimar.

A liberdade de fabricação era, por vezes, condicionada pela defesa do consumidor: assim os pisões e a tosa deviam geralmente fixar-se nos centros principais de fabricação dos tecidos para, a todo o tempo, o vedor poder controlar o fabrico e os corregedores poderem, dentro do prazo, proceder aos varejos.
A estrutura económica do fabrico dos lanifícios pode resumir-se desta forma. Cada técnica tinha o seu processo de trabalho: a escolha das lãs, a escarduça e a cardação desenvolviam-se em regime de assalariado, sob fiscalização do traficante; a fiação era executada, por toda a vila, na casa dos fiandeiros, em regime de empreitada. A tecelagem, a urdidura das teias, o encher das canelas constituía um trabalho conjunto sob a direcção e para o interesse do tecelão que trabalhava, umas vezes, por conta própria, outras para o mercador que lhe movimentava a oficina. O pisão englobava, muitas vezes, a percha e a tosagem. E as tinturarias eram, normalmente, oficinas especializadas, trabalhando para o mercado do trato e auferindo os lucros da transformação que efectuavam, ao mesmo tempo que trabalhavam por conta própria, se também fossem mercadores.
Quem poderá negar que existia, na base desta organização livre, um capitalismo em embrião? O espírito do lucro e organização do negócio eram a chave de todo o tráfico.
O mercado nacional é o objectivo destes mercadores e fabricantes. O ciclo municipal estava naturalmente ultrapassado, por isso, não é de admirar que nos apareça no século XVI um regimento nacional a presidir à feitura dos panos, em oposição aos anteriores regimentos municipais.


Notas dos Editores – 1) ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, livro 4, fl. 38 v. Recolhemos, entretanto, do espólio do investigador uma ficha referente a um documento dado em Santarém em 26 de Novembro de 1441 a um Salamam Cofem, tecelão da Covilhã, Chancelaria de D. Afonso V, livro 2, fl. 55, portanto anterior ao dado a Mail Levy. 2) Estamos a apresentar o seu Processo na Inquisição de Lisboa.

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