segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Covilhã - A Alcaidaria I


Ao encontrarmos no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias  documentação vária e algumas reflexões sobre a alcaidaria da Covilhã, decidimos iniciar a sua publicação. Sabemos da extensão e das dificuldades com que nos deparamos, mas esperamos não ser mal sucedidos.
ALCAIDE é uma palavra de origem árabe que significava governador de uma praça. Com a Reconquista Cristã designava os governadores das vilas, de origem nobre, que como representantes do rei detinham funções militares, judiciais e administrativas. É mais uma das maneiras do rei recompensar a nobreza através do cargo e de tenças que lhe concedia, até ao momento em que o desobrigava da menagem que prestara. O alcaide habita o castelo. Quando saía da sua vila, podia nomear um alcaide menor ou alcaide pequeno que tinha essencialmente funções civis.
 O governador – Alcaide – virá a receber a designação de alcaide-mor. Com o tempo este cargo passou a ser meramente honorífico. Alcaide passou também a designar funções completamente diferentes.
Panos de muralha

Torre octogonal
      Se nos reportarmos à Covilhã sabemos onde viveu o alcaide: ao revermos a planta das muralhas da Covilhã, que publicámos em 5 de Julho passado, encontramos “a porta do castelo” e aí próximo restos de panos de muralha, para além duma torre octogonal; todos estes vestígios são na zona mais alta da povoação, onde ficaria o Castelo, e muito perto da Capela do Calvário.

A Covilhã muralhada
  
Luiz Fernando Carvalho Dias deixou-nos algumas reflexões soltas sobre a alcaidaria:
  “Alcaide - sua ligação com o concelho; a função do alcaide; o alcaide e o senhor ou dominus terrae; O dominus terrae e o privilégio; o privilégio nos forais como a Covilhã, i. e. nos forais dados pela coroa; o privilégio nos forais como a Guarda; o privilégio nos forais das terras das Ordens e com senhorio conhecido; o privilégio nas terras como Évora - sem senhorio ou dominus terrae; o dominus terrae para Herculano; A coexistência do dominus e do privilégio; o privilégio para  Paulo Merea; O foral original de D. Sancho não existe, mas só a confirmação de D. Afonso II; a restrição na doação de bens da Coroa; O privilégio é o precário em conformidade com o direito estabelecido por D. Afonso II para essa transmissão. Mas essa restrição vai caindo no esquecimento. Dominus terrae da Covilhã nos documentos.
      Alcaides mores e alcaides menores - Quando os alcaides mores estavam ausentes, deixavam quem os substituisse na defesa do governo da praça. Assim o alcaide-mor da Covilhã,  D. Rodrigo de Castro, também conhecido por D. Rodrigo de Monsanto, por ser filho do Conde de Monsanto, durante muito tempo ausente nas guerras e governo das praças do norte d’ África, foi substituído por Joham de ffygueiredo, o moço, que era alcaide menor, ou alcaide por D. Rodrigo.
Tenens, pretores, senhores e alcaides da Covilhã, até ao fim do sec. XV. Estes termos podem ter a mesma significação.”

Para organizarmos a lista dos Alcaides baseámo-nos numa do investigador; mas estamos a completá-la com nomes que nos vão aparecendo nos documentos.


Vejamos uma lista (provável) dos Alcaides da Covilhã:


Ermígio Pais (1)
Documento de 1180 (D. Sancho I)
Estêvão Anes (2)

Documento de 1222.


Álvaro Vasques de Castel Branco

Presta menagem a D. Pedro em 1345. "Carta por que se entregou o seu castelo a Álvaro Vasques de Castel Branco"

Álvaro Gil Cabral

Presta menagem a D. Fernando em 1367. Também foi alcaide da Guarda. É trisavô de Pedro Álvares Cabral. 


Gil Peres da Guarda

Entrega do castelo da Covilhã ao rei e quitação de menagem em 27 de Junho de 1383.
Diogo Gonçalves Tavares

Entrega do castelo da Covilhã ao rei e quitação de menagem em 14 de Setembro de 1383.


Afonso Gomes da Silva

c. 1350.
Na Chancelaria de D. João I: “Carta por que o dito senhor deu em tença a Afonso Gomes da Silva, alcaide da Covilhãa com o dito castelo a pensão dos tabeliães e os foros e os direitos dos judeus da dita vila e a outras rendas...” 
Vasco Pires de Castelo-Branco
c. 1350.
Casado com M. Anes Soares e pai de Martim Vaz de Castelo-Branco.
Martim Lourenço de Almeida
c. 1350.
Na Chancelaria de D. João I: “Carta per que o dito senhor fez doação enquanto fosse sua mercê a Martim Lourenço d’Almeida alcaide do Castelo de Covilhãa, do seu souto d’Alcambar com os moinhos que em ele estam...”  
Martim Vaz (ou Vasques)de Castelo-Branco
c. 1400
Também foi alcaide de Moura.
Monteiro-mor.
Senhor do couto d’Alcambar. 
João Lourenço de Figueiredo
c. 1410
Filho segundo de Aires Gonçalves de Figueiredo e de Leonor Pereira.
Recebe mercês de D. Afonso V. 
D. Fernando de Castro
c. 1380-Abril 1441.
Era filho de D. Pedro de Castro, Senhor de Cadaval, e de D. Leonor de Menezes.
1º senhor do Paul e Boquilobo, de Ançã, S. Lourenço do Bairro.
Governador da Casa do Infante D. Henrique, que o faz Alcaide-mor da Covilhã.
Foi vedor da Fazenda, Capitão da Gente de Pé na tomada de Ceuta.
Quando em Abril de 1441 ia negociar a entrega de Ceuta em troca de D. Fernando, o Infante Santo, foi atacado e morto por corsários genoveses, junto do cabo de S. Vicente.
D. Álvaro Pires de Castro
c. 1420-Arzila, Agosto de 1471.
Filho de D. Fernando de Castro e de D. Isabel de Ataíde.
1º Conde de Monsanto.
Sucedeu a seu pai nas terras que ele teve, bem como na função de alcaide-mor da Covilhã.
Também foi fronteiro-mor e Senhor de Cascais.
Acompanhou D. Afonso V na conquista da praça africana, Arzila, onde morre.
D. Rodrigo de Castro
c.1440-1520(?).
Senhor de Valhelhas e Almendra (1476), o de Monsanto, capitão no norte de África, filho natural de D. Álvaro de Castro (1º conde de Monsanto) e de D. Maria Coutinho.
D. Manuel, Duque de Beja, faz mercê do castelo e alcaidaria da Covilhã a D. Rodrigo, por carta lavrada em Montemor-o-Novo, a 26 de Janeiro de 1485.
João de Figueiredo, o Moço, era alcaide menor ou alcaide por D. Rodrigo.
Gonçalo Mendes, criado, procurador, feitor e administrador de D. Rodrigo e alcaide por ele no Castelo da Covilhã, por procuração de 24 de Novembro de 1507.
Uma das filhas, Dona Joana de Castro, foi casada com João Fernandes Cabral, alcaide-mor de Belmonte e irmão mais velho de Pedro Álvares Cabral.
As duas filhas - Dona Isabel e Dona Joana - mandam construir duas capelas funerárias na Igreja de S. Francisco.
“D. Manuel autorizara, sendo duque, ao dito D. Rodrigo de Castro, por seu alvará de Benavente de 20 ou 25 de Fevereiro de 1493, a emprazar quaisquer chãos, courelas e coisas do Reguengo do Alcambar, em 3 vidas, com reserva das moendas de pão… No alvará de Benavente, já citado, diz-se que D. Rodrigo é alcaide pelo Duque de Beja.”
Em 7 de Agosto de 1505 é feita doação do castelo da Covilhã e rendas a D. Fernando de Castro e sua mulher, Dona Izabel de Castro, para haverem por morte de D. Rodrigo.
Dona Izabel de Castro
Filha de D. Rodrigo.
Casada com D. Fernando de Castro, senhor de Santa Cruz de Riba Tâmega, que morre em Arzila, por isso D. Isabel vai receber uma tença anual a partir de 1511.
Em 6 de Novembro de 1528, a alcaidesa Dona Isabel recebe confirmação do castelo da Covilhã, por uma carta de doação.
D. Diogo de Castro
? -1542.
Filho de Dona Izabel de Castro e de D. Fernando de Castro.
Casado com Dona Filipa de Ataíde.
Por falecimento de D. Diogo, o Infante D. Luís, Senhor da Covilhã, dá o castelo e alcaidaria da Covilhã ao seu mordomo-mor André Teles de Menezes, por carta de Lisboa datada de 17 de junho de 1542. 
André Teles de Menezes (ou André Teles)
?- 20-4-1562.
Filho de Dona Guiomar de Noronha e de Rui Teles de Menezes, 5º Senhor de Unhão.
Recebe a alcaidaria em 1542.
Mordomo-mor de D. Luís. Foi também embaixador em Castela. Estêvão de S. Paio foi alcaide pequeno por André Teles de Menezes.
Por falecimento deste, passou a alcaidaria com castelo e fortaleza e capitania-mor a seu filho, Ruy Teles da Silva, em 10 de Agosto de 1562.
Ruy Teles da Silva
?-1570.
Recebe do Pai a alcaidaria.
Por seu falecimento passou depois a alcaidaria ao filho, André Teles da Silva, por carta régia de 29 de Novembro de 1570, em Almeirim. 
André Teles da Silva
?- 18-11-1580.
Recebe do pai a alcaidaria da Covilhã.
Aires Teles da Silva
?- 14 de Fevereiro de 1601.
Prestou serviços na Índia e esteve cativo em Alcácer- Quibir.
Aires Teles da Silva é irmão de André Teles da Silva, recebendo carta de mercê da alcaidaria da Covilhã em 7 de Agosto de 1584, com efeitos desde o falecimento do irmão, ocorrido em 18 de Novembro de 1580.
Chancelaria de D. Filipe I: Alvará de lembrança da alcaidaria da Covilhã, concedido por D. Filipe I a Aires Teles da Silva. 1581-04-17 a 1598-09-13.
Alcaide-mor que, entre 1589 e 1590, travou uma curiosa questão com a Câmara da Covilhã relacionada com as dízimas da execução das sentenças dadas na dita vila, que queria receber. Por sua vez o concelho da Covilhã entendia que as não deveria pagar, visto já as pagar na cidade do Porto a cujo distrito pertencia e que, pagando-se ao alcaide, corresponderia pagarem-se duas dízimas. A questão foi resolvida pela Relação do Porto que deu razão ao concelho. Desta questão publicaremos os acordãos sob o título de “Sentenças de D. Filipe”. Nelas se contém um curioso incidente de suspeição movido pelo concelho contra o corregedor que tinha ordenado aquele pagamento ao alcaide, invocando-se factos que comprovavam a possível parcialidade do corregedor no julgamento da questão, pelas intensas relações existentes entre ambos, coroadas pela oferta de vários presentes, designadamente de lampreias, pescado, carnes e doces do alcaide ao corregedor, o que veio a originar a anulação da ordem do corregedor.
Foi casado com Dona Isabel de Castro. Têm vários filhos: Ruy Teles da Silva, Dona Catarina, Dona Mariana de Vilhena.
Ruy Teles da Silva
Recebe a posse da fortaleza e castelo da Covilhã, por alvará de 1603 e através do seu procurador Salvador Diaz.
Como morre a caminho da Índia, este cargo passa para sua irmã menor Dona Catarina.
Dona Catarina Teles
Dona Isabel de Castro é sua Mãe e tutora. Seu Pai é Aires Teles da Silva.
Recebe a mercê por carta de 1606.
Chancelaria de D. Filipe II: Em documentos de 1611 e 1612 é referida como alcaidesa. 
Luís Castro do Rio
Casa com Dona Catarina em 1616 e, por isso recebe a alcaidaria em 11 de Julho de 1618. Não têm filhos.
João Jorge Furtado de Mendonça
4º Senhor de Barbacena.
Foi casado com Dona Mariana de Vilhena, filha de Aires Teles da Silva. 
Afonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça
c. 1610-1675.
É filho de João Jorge Furtado de Mendonça e sobrinho de Luís Castro do Rio.
Recebe a alcaidaria a partir de 1 de Janeiro de 1641.
1º Visconde de Barbacena por carta de 1661.
Governador e capitão-General do Brasil por nomeação de 1671.
Jorge Furtado de Mendonça
c. 1650-1708.
2º Visconde de Barbacena.
Recebe a alcaidaria por carta de 10 de Setembro de 1676.
Foi provedor da Santa Casa da Misericórdia da Covilhã em 1678-79.
Foi também comendador de S. Martinho de Arrefegas (Aldeia do Mato). 
Gaspar José da Gama
É referido como alcaide-mor da Covilhã na Chancelaria de D. Pedro II. 
Afonso Francisco de Castro do Rio Mendonça ou Afonso Francisco Furtado de Mendonça  

1690-?
O alvará da 1ª confirmação da alcaidaria-mor tem a data de 20 de Abril de 1709.
D. António Henrique de Gusmão
Alcaide-mor da Covilhã através do instrumento de posse de 2 de Dezembro de 1713.
No mesmo documento é referido Manuel Cardoso que é, provavelmente, o alcaide pequeno. 
Luís Xavier Furtado Mendonça
n.1692.
É irmão de Afonso Furtado de Mendonça.
4º Visconde de Barbacena.
José Rosado (?)
Provisão, datada de 8 de Fevereiro de 1745, para poder servir por mais três anos o ofício de alcaide da dita vila.
Francisco Vicente Xavier Furtado Castro do Rio e Mendonça
1728-?
Recebe o alvará de mercê da alcaidaria em 7 de Setembro de 1777.
5º Visconde. 
Luís António Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro
1754-1830
6º Visconde de Barbacena.
1º Conde de Barbacena. 
Curiosidade – Aquando da Guerra dos 7 Anos (1756-1763) a Covilhã, invadida em 1762, chegou a ter um “alcaide fantasma" não nomeado pelo rei D. José I, mas pelo comandante das tropas francesas e espanholas, chamado Filipe Pacheco de Aragão; este nomeou Ventura José “alcaide pequeno”.

Notas dos editores – Nas próximas publicações contamos ir apresentando os documentos encontrados no espólio de Luiz Fernando Carvalho Dias sobre a alcaidaria da Covilhã. Esperamos poder ir acrescentando ou rectificando esta lista dos alcaides da Covilhã.
1) Esta informação encontra-se em "Subsídios para a História Regional da Beira Baixa, volume II, edição da Junta Provincial da Beira Baixa, 1950.
2)Esta informação encontra-se em "Subsídios para a História Regional da Beira Baixa, volume II, edição da Junta Provincial da Beira Baixa, 1950. No entanto o documento, dirigido ao alcaide e aos juízes da Covilhã, não tem os nomes destes. Apresentaremos o documento do Port. Mon. Hist. (indicado por Alfredo Pimenta), em que Estevão Anes é nomeado alcaide da Covilhã, no episódio Alcaidaria IX.

As Publicações do Blogue:
Estatística baseada na lista dos sentenciados na Inquisição publicada neste blogue:
http://covilhasubsidiosparasuahistoria.blogspot.pt/2011/11/covilha-lista-dos-sentenciados-na.html





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